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Anamorfose e rizoma

João Silvério

2026

Quando visitei o atelier de Suzana Queiroga para observar as suas pinturas, a minha atenção foi convocada para uma pequena escultura suspensa do tecto da sala onde a artista trabalha. A escultura, que é como um modelo das obras de maior dimensão que a artista tem desenvolvido e exposto, pertence a uma série de trabalhos intitulados “Cloud Cities” e pareceu-me, num primeiro

vislumbre, exactamente como uma nuvem orgânica. A questão que se põe nesta minha observação fugaz, e posteriormente revista, prende-se com uma contradição que pauta uma das vias do trabalho de Queiroga: o infinitamente grande em oposição, mas em relação, com o infinitamente pequeno.

A artista refere-se a esta questão numa passagem de um texto da sua autoria, onde faz a seguinte breve reflexão sobre as obras desta exposição: “Temos dificuldade em lidar com a ideia do infinito, pois ele será sempre maior ou menor do que nossa capacidade de imaginá-lo. Quando pensamos no infinito, geralmente o entendemos numa constante expansão para o imenso e não no oposto, no entanto, interessa-me também pensar na outra direção, na direção do infinitesimal, o imensurável ou incalculavelmente pequeno, derivado da conceituação matemática de que uma quantidade poderia ser dividida infinitamente, subdividida em frações infinitesimais, um cálculo que tende ao infinito.”

No trabalho da artista, uma outra via de exploração de referências está presente através de uma vivência auto-referencial, estreitamente ligada à sua memória de infância e a uma situação trágica: a perda do seu pai num acidente de aviação na Baía de Guanabara. Esta memória afectiva foi sendo transposta para o seu universo visual através de uma ideia de mapeamento no tempo, que podemos

associar a uma relação com uma grelha analítica que identificamos, de um modo genérico, como um mapa de uma cidade, ou como uma cartografia de espaços e lugares que se vão transformando em módulos visuais, mais abstractos, na linhagem de uma leitura do neo-concretismo de artistas que

marcaram a sua formação como mulher e artista no Brasil, de onde é natural. Contudo, a formação de Suzana Queiroga desenvolveu-se também em História das Ciências e das Técnicas e Epistemologia. Assim, entre a arte e a ciência, o seu trabalho deriva para uma experimentação que utiliza diversos meios materiais e poéticos, sugestivos de uma metodologia, se assim se pode dizer,

rizomática, orgânica e sucessivamente reversível e transitória, no sentido em que cada elemento plástico não obedece a uma ordem crescente ou decrescente, mas a uma empatia que reconfigura uma aparentemente “natural” sequência de escalas, proporções e matrizes cromáticas.

As pinturas, que dão forma ao título da exposição, O Infinito na caixa, porque a linguagem escrita é também parte do processo de trabalho, são numa primeira aproximação formas abstractas modulares e estáticas. Contudo, o tempo, na sua estratificação enquanto experiência subjectiva do espectador, é uma condição essencial para absorver o movimento que aquelas formas, pintadas

numa paleta controlada e austera de cores frias, desenvolvem dentro do formato da caixa/tela como se estivéssemos em presença de uma caixa, ou placa de petri, de apreciável dimensão, onde se processam culturas de micro-organismos em laboratório. Esta analogia reside numa recorrente

imagem da água, extraída da memória de infância da artista, em que a representação dessas figuras de matriz biológica pode ser afinal extrapolada na sua escala, sendo paradoxais na sua proporção, entre o infinitamente grande e o infinitamente pequeno, de que na realidade são próximas.

Exemplos disso são o modelo da escultura suspensa, que nos confunde, algures entre a nuvem e a cartografia de uma cidade, sem princípio ou fim que se anuncie, ou as duas caixas escultóricas que se desdobram em formas orgânicas, numa perspectiva que nos convida a mergulhar o olhar no seu

interior.

Uma outra característica essencial destas pinturas é a sua composição, que cria uma tensão subtil através da dimensão diversa dessas células, estribada no seu movimento aparente que nunca cessa, de facto infinito e impossível de dominar e de conter dentro da caixa/tela, da qual não ficam reféns, mas de onde não há possibilidade de fuga ou de expansão.

É no tempo da observação que estas pinturas aquosas, orgânicas e sensuais se multiplicam, recordando-nos de que a memória, mesmo cartografada, se perde na infinitude da nossa existência enquanto seres orgânicos que resistem na materialidade que também somos parte.

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©2022 by Suzana Queiroga

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